Por causa de dois excelentes posts do Mario Amaya sobre cibercultura — “Sempre fui cyberpunk” e “Uma crítica à cibercultura” — acabei fazendo uma retrospectiva dos meus anos pré-Internet e lembrando dos fragmentos de cultura digital que fizeram parte da minha formação cultural.
No começo dos anos 90 (mais especificamente em 1993) eu era um lamer de 16 anos, com um PC 386 e um modem USRobotics de 14.400bps, que achava que ser subversivo era ter no HD de 80MB uma cópia do Jolly Roger Cookbook, o “livro de receitas dos anarquistas”.
Acessava diariamente (ou “noturnamente”, pra ser mais preciso) a CentroIn, Mandic e Louca BBS², era Co-SysOp da JMBBS e dividia com um amigo (quando meus pais deixavam e apenas entre às 2h e 6h da madrugada) a manutenção do meu repositório pessoal de “informações subversivas”: a Silent Walkers BBS (o nome era meio ridículo, mas as telas feitas no TheDRAW eram fodásticas!)
Naquela época — e esse é um detalhe que os mais novos devem desconhecer — o número de pessoas que podiam se conectar ao mesmo tempo em uma BBS era limitado pela quantidade de linhas telefônicas de que ela dispunha — a LoucaBBS, por exemplo, tinha menos de 40 linhas. Para poder jogar MUD — uma espécie de World of Warcraft em modo texto — eu esperava até meia-noite (quando as ligações passavam a ser gratuitas), colocava o PC para discar o número da BBS, aumentava o volume das caixas de som e ia fazer outra coisa, esperando que a conexão fosse estabelecida e o computador emitisse o famoso som que a “geração Velox/Speedy/NET Virtua” nunca ouviu.
Foi também nesse período que eu descobri o RPG e Loyd “The Mentor” Blankenship, um dos fundadores da Legion of Doom e autor de GURPS Cyberpunk, “o livro retido pelo Serviço Secreto dos EUA”, que apresentava como cenário de jogo um futuro distópico, definido pela interação do homem com a tecnologia e pelo conflito social. Foi esse livro que me levou a 1984 e Neuromancer, aos trabalhos de H.R. Giger e a filmes como Blade Runner, Akira e THX 1138 (um de meus filmes favoritos).
A mistura de tudo isso com citações de Henry David Thoreau e exemplares da Heavy Metal Magazine³ deu origem ao fanzine Mídia Nômade, que abordava temas como ativismo, desobediência civil, intervenções urbanas e cultura digital (foram editados apenas 3 exemplares, com 4 páginas cada). Anos depois tentei re-editar o Mídia Nômade em formato eletrônico, mas “a onda” tinha passado.
Enfim, veio o lançamento do Windows 98, o surgimento do Audiogalaxy, o crescimento da Google e o fim do período Mezozóico da Internet.
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¹ Referência a Mago: A Ascensão.
² Lembro que assim que me tornei Co-SysOp da JMBBS, a empolgação em acessar diferentes BBSs do Rio, São Paulo e Belo Horizonte acabou me rendendo uma conta telefônica no valor de 400 URVs (que foi paga com a venda do meu kit multimídia da Creative Labs).
³ Pros que não conhecem, segue link para download direto do exemplar de novembro de 1993 da Heavy Metal Magazine.
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Addendum
Além das referências já citadas, recomendo também a série pós-cyberpunk Transmetropolitan, escrita por Warren Ellis e ilustrada por Darick Robertson (download gratuito da edição #1 direto da DC Comics, em inglês).
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“Num mundo duro e em desintegração há pouco em que acreditar ou com o que se identificar, com exceção de si mesmo. Quem você realmente é se tornou muito menos importante que sua imagem — quem as pessoas pensam que você é ou poderia ser. Isso vale para tudo, de roupas a acessórios tecnológicos e até seus avatares na rede”.
Loyd Blankenship – Cyberpunk
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