Clichês de Arte Contemporânea na Bienal de SP

Produzir uma instalação, vídeo, foto ou qualquer outra obra sobre o nada é um dos clichês que mais abomino na arte cotemporânea. Ninguém tolera mais tamanha palhaçada.

Pois foi justamente isso que os curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen decidiram fazer com todo o segundo andar do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera, durante a 28ª Bienal de São Paulo. Segundo os curadores, a obra (sic) “planta livre” tem os objetivos de “enfatizar a arquitetura do prédio, rompendo com o formato tradicional” e “propor uma reflexão sobre o sistema das bienais, a Bienal de São Paulo como um estudo de caso.”

Pra mim, permanece a impressão de que, hoje em dia, todas as artes se resumem a arte retórica. A instalação, escultura, foto, vídeo ou o que for, por si só, não quer dizer nada. O que transforma aquela grande babaquice em arte — digna de ser exibida numa bienal — são os comentários herméticos do autor/curador, que normalmente utiliza para descrever sua obra expressões inócuas que ele tirou de algum texto de Sartre. Ou melhor! Basta ele usar o Fabuloso Gerador de Lero Lero e dizer que “num sentido pictórico-lúdico, a obra reflete a desconstrução metafórica dos paradigmas da arte contemporânea e garante uma interessante oportunidade para verificação das posturas dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições”. Aí sim, um andar vazio de um prédio transforma-se, magicamente, em arte.

5 Responses to “Clichês de Arte Contemporânea na Bienal de SP”


  1. 1 Rapinante 26/10/2008 às 2:27 AM

    O único “detalhe” ignorado nesse texto é o fato do referido vazio [ou “planta livre”] NÃO TER em momento algum qualquer pretensão em ser uma “obra de arte”. pode-se criticar o tal ‘vazio’ de diversas formas, mas o pseudo-argumento apresentado neste blog lamentavelmente não se aplica de jeito nenhum. portanto, se quiser dando seguimento para sua catarse anti-arte contemporânea, sugiro investir mais em interpretação de texto primeiro.

  2. 2 Priscila de Almeida 10/11/2008 às 7:30 PM

    A arquitetura é uma das mais belas obras de arte que o homem realiza, e Planta Livre foi sim uma apresentação de arte, obra de um dos maiores arquitetos, ou melhor aruiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, o trabalho dele é pura arte, pois bem sei que você naum seria capaz de fazer tamnha obra de arte como ele , pra você meramente uma babaquice. Fazer o que pessoas estúpidas de hoje pensam assim……………..

  3. 3 Roberto Sirio 08/02/2009 às 3:16 PM

    Nossa, que comentário ridiculo!!!Concordo com tudo que o autor disse e mais ainda: essa babaquice contemporânea alem de ser de gente de mau gosto, é tambem de gente pretenciosa, que se faz de intelectual sem sê-lo. E pra vc, babaquinha, Oscar Niemeyr pode ser “gênio” mas ninguem tem obrigação de achar que aquele monte de bosta que ele fez em Brasilia é arte. Mas….num mundo onde até “bosta de artista” é aclamada, tem gosto pra tudo ne?

  4. 4 Kaliel 18/02/2009 às 1:21 AM

    Concordo plenamente com quem escreveu o texto.

    Indico a comunidade no Orkut “Que falta faz uma enxada” para todos os “artistas” modernos de plantão.

  5. 5 aroldo alves 20/07/2009 às 8:22 PM

    Jornada ao Parque Dona Lindu

    O parque Dona Lindu: certo, gostei do modo como ele se abre para quem vem pela orla: a calçada se bifurca e o caminho à direita se alarga e se inclina levemente, encontrando-se ainda, ao fim da subida, com um largo trecho que lhe é contíguo – ainda que principie mais elevado – e de mesmo comprimento, este o patamar desse belo calçadão. Qualquer o lado de que se parta, a configuração é a mesma. Simetria bem calculada, mas que se faz sentir simples por quem se deixa levar pelas sensações. Mas logo as impressões tornam-se um pouco melancólicas: à noite, os dois grandes prédios em construção e o canteiro de obras entre eles tem um ar de abandono. Um amontoado de equipamentos e matéria-prima e valas e a arquitetura de Niemeyer, que, para este leigo, parece se repetir sempre, com um teto inclinado cuja finalidade me escapa, as velhas características desse arquiteto incensado; esses prédios dão a impressão de terem sido produzidos por um software que emula, sem a intervenção do homem, o estilo de Niemeyer. Eu li em algum lugar que ele rejeita as formas retas e adota a sinuosidade como forma de gerar uma sensação de liberdade. Não vejo liberdade alguma. Vejo prédios áridos. Um pouco de barroquismo é tão aconchegante. Se o barroquismo é excessivo, fazer de lugares onde as pessoas deveriam entrar e apreciar o espaço esculturas gigantes que celebram princípios estéticos que não lhes dizem nada é tão excessivo quanto. A idéia da Bauhaus não era alcançar a beleza através da utilidade? Os prédios podiam remeter a essa aridez, talvez, mas tudo era pensado para ser útil, o que já é de valia. Talvez todo grande prédio seja inerentemente desumano. Bem, os prédios desse parque não são gigantescos e ainda assim apequenam as pessoas. Um teto une os dois grandes prédios e algumas construções menores no intervalo entre ambos; cheguei a pensar que se tratasse de uma passarela, mas percebi que não ao constatar a ausência de qualquer mureta. E, se não me engano, nenhuma de suas extremidades dá em qualquer vão. É um teto sinuoso, claro, porque os prédios menores não estão na mesma linha reta que se pode traçar imaginariamente entre as duas grandes estrelas-vedetes da constelação. Liberdade, claro. Alguém sente liberdade, percebe liberdade, ao observar aqueles prédios de Brasília? Deus, como Gaudí é melhor que isso. Como há calor humano de fato em suas sinuosidades e no amontoado de detalhes que não nos parecem preciosismo, mas criação lúdica, aberta, portanto, à sensibilidade, à intuição. Como as casas simples de subúrbio são melhores que isso, com seus jardins e bancos externos, e sua madeira, e são todas muito iguais, é claro, mas evocam sensações de proximidade e ternura. E, no polo oposto, os prédios mais variados, do ponto de vista técnico, desses que se veem na orla de Boa Viagem (aí vivo e me entedio) não dão ao homem comum a mesma impressão, seja essa qual for? Eu aposto que sim. E aposto que essa impressão é a de indiferença, ou então de deslumbre passageiro, como se deslumbra com um carro esportivo da última geração, tão-somente porque seu metal cintila mais que os outros, e seu contorno é mais “ousado” e todas essas características cosméticas que o mercado introjeta no consumidor como beleza, simplesmente para serem descartadas mais tarde como design ultrapassado ou catalogadas por outra tribo de fetichistas que nutre a nostalgia dos “tempos de ouro” como hoje os menos talentosos dos grupos dos anos 1980 encontram sempre alguém disposto a deles se servir como forma de apaziguar seu vazio existencial que, a propósito, não tem nada a ver com essa ficção oitentista, mas como este presente de realidade indiscutível? Para que é feita então a arquitetura? Para ser fruída por arquitetos que se embasbacam com sutilezas que só eles veem? Achei que a arquitetura fosse feita para o homem comum. Belo exemplo de comunista esse Niemeyer, e eu não me refiro a sua promiscuidade quase aleatória em relação à função dos trabalhos que aceita, mas ao fato de que sua obra não é feita para aplacar a miséria do homem comum. Não se descansam os olhos diante de uma obra de Niemeyer, por mais ausente de adornos que ela seja. Niemeyer diz que a beleza é funcional. Ponto. Imagino que seja sua justificativa para, mesmo sem utilizar adornos no sentido mais estrito da palavra, sua tendência à não utilidade. Qual a função de tetos inclinados, à parte escoar a água (mas este nunca foi o caso em vista em sua obra), senão de fato a disfunção de eliminar espaço útil numa medida que não justifica a economia de material? Certo, talvez ele entenda mais de acústica do que eu, mas, aparentemente, são mais tetos inclinados e cantos de ângulos agudos do que me parece apropriado. Ah, mas a beleza…! Sim, se você supuser-lhe existente. A mim, o que vejo é aridez. Fluidez? Sinuosidades? Modernismo? Brasília? Brasília? Brasília?


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