A Última Ceia é só a pintura de um lanche

viridiana-ultima-ceia

Fotograma do filme de Buñuel, Viridiana.

Fato: se tirarmos da Última Ceia todo seu contexto histórico o que resta é basicamente o retrato de 13 pessoas fazendo um lanche. E antes que alguém corra até os comentários para me chamar de ignorante, quero deixar claro que não estou menosprezando o brilhantismo de Leonardo da Vinci como pintor, mas convenhamos que conhecer o simbolismo e o significado de detalhes da pintura é que acrescenta novas camadas de interesse ao trabalho. Sem esse referencial a Última Ceia é até bonita, mas não fica muito longe da imagem acima.

Em arte isso é chamado (corrijam-me os entendidos se eu estiver falando besteira) de “níveis de leitura”. Cada pessoa, com base em seus conhecimentos de arte e seus referenciais, aprecia o trabalho em um nível. Uma leigo olha para o teto da Capela Sistina e vê a obra de uma certa forma. Já para um PhD em História da Arte as pinturas podem “dizer” coisas bem mais interessantes e complexas. Ambos apreciam, mas cada um do seu jeito.

Enfim…

Cheguei há alguns dias de Tiradente e acredito que quem vai até lá (ou a qualquer outra cidade histórica) sem o acompanhamento de um professor de história ou guia turístico competente acaba “perdendo” detalhes interessantes da arquitetura, como as eiras e beiras¹ dos telhados, os passeios com calçamento pé-de-moleque e as igrejas em estilo barroco. E nem adianta ir pensando que os funcionários que trabalham nas igrejas sabem alguma coisa sobre o monumento pelo qual são responsáveis, pois a maioria está alí apenas para recolher os R$ 2,00 do ingresso.

E aí chegamos ao ponto que quero abordar.

Foi a primeira vez que viajei com o iPhone e preciso dizer que ele foi um fantástico guia turístico. Bastava entrar em uma igreja ou parar em frente a um prédio importante e *pimba*, lá estava o Google  com todas as informações sobre aquilo que eu estava vendo. Ano de fundação, aspectos peculiares da construção, eventos históricos marcantes, TUDO!

Na hora do almoço, surgiu a dúvida sobre o que era o tal frango com ora-pro-nóbis e o porquê do nome? *pimba*

E de noite, no bar, que música legal era aquela tocando ao fundo? Bastou usar o Shazan e descobrir que era Madeleine Peyroux.

Decidimos, de última hora, que queríamos fazer o passeio de maria fumaça entre Tiradentes e São João del Rei mas não sabíamos o preço ou os horários? *pimba*

Eu poderia continuar, mas acho que já deu pra entender.

Como disse o Cardoso, tem gente que acha estranho quando um sujeito, dentro de uma igreja em Tiradentes, puxa o telefone do bolso pra perguntar ao Google por que uma construção cristã tem sobre o altar uma meia-lua e, no teto, uma estrela negra de oito pontas². Pra mim estranho seria entrar na igreja, reparar nesses detalhes e ir embora sem saber as respostas.

_______________

1. As eiras e beiras nos telhados dos casarões eram um dos símbolos de riqueza das famílias do período colonial. Quem tinha dinheiro construía telhados com eiras e beiras, já os pobres não tinham eira nem beira (daí a expressão).

eiras-e-beiras

Telhado com eiras e beiras e calçamento pé-de-moleque em Tiradentes, por Marcia Rosa.

2. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (destinada aos negros) foi construída durante a noite por escravos que trabalhavam nas fazendas durante o dia. Isto é simbolizado pela estrela negra de 8 pontas no teto e pela meia-lua sobre o altar.

1 Response to “A Última Ceia é só a pintura de um lanche”


  1. 1 NáJUNG 08/09/2009 às 3:38 PM

    Me conectei aqui pelo cheiro da arte, adoro!
    E O SANTO LANCHE, HEHEH…A-D-O-R-E-I


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