A arte de andar à pé (sauntering¹ & wanderlust)

Assim como Henry David Thoreau em seu livro “Andar à Pé” (Walking – 1862), nestes 30 e poucos anos de vida encontrei pouquíssimas pessoas que compreendiam a arte de caminhar, de dar passeios a pé. Dentre estas, um número ainda menor tinha o que nos países de língua inglesa é chamado de “wanderlust” palavra derivada do alemão, sem equivalente em português — que significaforte desejo de andar, viajar, explorar o mundo” (em alemão: “wandern’’, “a vagar”, e “Lust”, “desejo”).

Quando me proponho a guiar grupos de pessoas durante longas caminhadas por parques ou áreas de proteção ambiental, a primeira pergunta que normalmente ouço é: “O visual do lugar que vamos visitar compensa esses 10km de caminhada?”. E minha resposta é quase sempre a mesma: Não encare a caminhada como um sacrifício para atingir um determinado objetivo. A caminhada, por sí só, já faz parte da diversão. Quem encara a trilha como “mal necessário para se chegar em um lugar bacana” não entendeu direito o que é visitar uma reserva ambiental.

Trilha-dos-espelhos

Pros que, como eu e a Sra. Dois Espressos (foto acima), curtem caminhadas “selvagens” ou urbanas e querem compartilhar dicas de bons locais para flanar² ou fotos de suas andanças, criei o grupo “Sautering”, no Flickr. Apareçam por lá!

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1. “Sauntering”, palavra esplendidamente derivada de “pessoas vadias que erravam pelo país, na Idade Média, e pediam esmola sob o pretexto de irem à la Sainte Terre” à Terra Santa, até as crianças exclamarem “Lá vai um Sainte-Terrer“, um “Saunterer”, um da Terra Santa. Os que nunca vão à Terra Santa nas suas peregrinações, como pretendem, são, em verdade, meros vadios e vagabundos; mas os que lá vão ter são “saunterers”, no bom sentido que tenho em vista. É certo que alguns derivariam a palavra de sans terre, sem terra ou pátria, o que, portanto, no bom sentido, significará — não tendo pátria determinada, mas igualmente tendo sua pátria em toda parte. Pois este é o segredo do vitorioso “sauntering”. Os que se deixam permanecer em casa, quietos, sempre e sempre, podem ser os maiores errantes de todos; mas o “saunterer”, no bom sentido, não é mais errante do que o rio sinuoso, cujo propósito contínuo é encontrar o caminho mais curto para o mar. Prefiro a primeira como sendo a derivação mais provável pois toda caminhada é uma espécie de cruzada que nos foí pregada por algum Pedro, o Eremita, para avançarmos reconquistarmos esta Terra Santa das mãos dos infiéis. (Henry David Thoreau – “Andar à Pé”)

2. Do francês “flâneur”, siginifica “passear ociosamente; vaguear; perambular”. Caminhar pelo prazer de apreciar o que está à sua volta, parando aqui e ali para observar algo que chame sua atenção.

5 Responses to “A arte de andar à pé (sauntering¹ & wanderlust)”


  1. 1 Arthur Guerra 03/08/2009 às 5:49 PM

    Muito interessante sua indicação, sobre Henry David Thoreau. Eu não o conhecia e estou fazendo uma pesquisa e o tema toca (bem de leve) sobre a flanerie. Vou dar uma lida, mas sem dúvidas foi muito útil.

    Ah, a propósito, eu não tenho certeza, mas eu acho que o verbo wandern pode dar o sentido de “vagar na natureza”.. Eu vou dar uma pesquisada por aqui e depois te falo.

  2. 2 Kelly 03/08/2009 às 8:32 PM

    Com caminhada ou sem, Thoreau é sempre ótima indicação! :)
    me lembro de uma crônica de Clarice que falava sobre o pensamento dele sobre a vida. Muito bom!

    :)

  3. 3 mark 06/08/2009 às 12:49 AM

    nada aver com o post. mas vi isso porai e sei que tu tava querendo um derrepente é uma boa.

    http://www.boygeniusreport.com/2009/08/05/sony-reader-pocket-edition-and-reader-touch-edition-get-official/

  4. 4 Sidnei Sousa 20/05/2011 às 1:34 AM

    Gostaria que o espírito Wanderlust fosse o meu norte. Até procuro me esforçar, mas as circunstâncias da vida e a vida urbana têm me afastado da vontade de explorar os ambientes no sentido de conhecê-los e buscar uma essência. Wanderlust: forte desejo de andar, viajar, explorar o mundo, sem destino, mas buscando o que há além… a música Wanderlust da Björk foi o que me levou a pensar assim.

  5. 5 Sidnei Sousa 20/05/2011 às 1:37 AM

    Pensar sobre isso me deixou confuso: se não fosse por andar a pé, não conheceria algumas características do mundo como conheço e não seria, provavelmente, tão introspectivo.


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