Dou a maior força… porém…

Dou a maior força!

Cennarium — empresa que transmite espetáculos de teatro pela Internet — está promovendo hoje uma blogagem coletiva para divulgar o Manifesto Mais Teatro, Brasil! Um manifesto nacional que propõe a inclusão sociocultural e disseminação da arte, cultura e entretenimento usando como base o teatro.

O objetivo da campanha é:

Colher o maior número de assinaturas possível para dar entrada, junto ao Congresso Nacional, num projeto de Lei de Iniciativa Popular, para que seja obrigatória a construção de um Centro Integrado de Cultura, em cada município cuja população seja superior a 25 mil habitantes.

Esses Centros Integrados serão espaços multiculturais que, além de um teatro — núcleo fundamental do projeto — contarão com “salas de cinema, biblioteca, salas de exposições, salas para eventos e palestras, espaços para cursos e oficinas de teatro, artesanato, artes plásticas, pintura, música, dança”, “um espaço multimídia (…) para fomentar a inclusão digital (…) e, ainda, espaços destinados ao comércio”.

Dou a maior força!Sobre as intenções do projeto e suas bases ideológicas

Não há como questionar a importância da construção de espaços destinados a difusão cultural e artística onde quer que seja. Mesmo que o projeto não chegue a ser posto em prática, só o fato de “fazer barulho” e trazer a questão para pauta de debates já faz com que a iniciativa seja louvável e digna de apoio.

Entretanto, minhas duas formações acadêmicas — uma na área de Educação e outra na de Ciências Sociais — me obrigam a comentar dois pontos do Manifesto que considero controversos.

O primeiro ponto diz respeito ao uso do termo “cultura”. Acredito que é preciso ter cuidado ao afirmar que uma parcela da população está “sem acesso a cultura”. Particularmente não conheço ninguém que esteja “sem acesso” a novelas, Big Brother Brasil, futebol, funk e grafite (pixação)… e tudo isso é cultura. Logo, dizer que “qualidade da educação de um país está intimamente ligada ao acesso que sua população tem à cultura” é, no mínimo, incompleto. O que se quer dizer, creio eu, é que a qualidade da educação de um país está intimamente ligada ao acesso que sua população tem à cultura que as escolas consideram legítima e digna de reprodução (o que também é discutível, mas, enfim…).

O segundo ponto — e esse me preocupa mais — diz respeito as afirmações, com questionável base teórica, que apontam a educação como elemento fundamental para a construção de um projeto nacional e grande (principal?) responsável pela redução das desigualdades sociais (Bourdieu deve ter se revirado no túmulo).

Dizer que “quanto melhor o nível de educação, menor serão as desigualdades sociais” é acreditar, dentre outras teorias, no paradigma da educação redentora (vasta bibliografia sobre o tema na Internet), que já foi questionado por inúmero filósofos, sociólogos e educadores (arrisco até dizer que na biblioteca da Faculdade de Educação da UFJF — onde concluí uma de minhas graduações — exista uma sessão inteira só com livros, dissertações e teses sobre o tema).

Não sei se existem, nos dias de hoje, sociólogos ou educadores que ainda defendam a ideia de uma educação que busque adaptar o indivíduo ao meio para curar suas mazelas sociais.

Enfim… como disse acima… apoio integralmente a iniciativa de construção de espaços destinados à arte, mas acho importante promover uma discussão mais aprofundada sobre as ideias contidas no Manifesto para que, assim, tenhamos um Projeto de Lei que, se aprovado, será realmente a maior transformação da história da cultura brasileira.

Para conhecer todos os detalhes sobre o funcionamento dos Centros Integrados de Cultura, visite a página do “Mais Teatro, Brasil!” e leia o Manifesto. Lá você também encontrará informações sobre a viabilidade econômico-financeira do projeto, o conceito arquitetônico dos Centros Integrados e a importância deles para o desenvolvimento cultural da população dos municípios onde eles serão construídos.

_______________

UPDATE: Via Livros e Afins, uma lista com outros blogs que participam da blogagem coletiva.

  1. Caducando: Teatro; onde possível
  2. Caminhante Diurno: Mais teatro, Brasil!
  3. Código Livre: Mais teatro, Brasil! Dou a maior força
  4. Gatos em Foco: Mais teatro, Brasil! Dou a maior força
  5. Interpretante Imediato: Dou a maior força
  6. Jeguiando: Mais teatro, Brasil: Blogagem coletiva
  7. Jornalista Masini: Mais teatro, Brasil
  8. Jujuba Crônica: Mais teatro, Brasil
  9. Trecos e trapos: Mais teatro, Brasil
  10. Vivendocidade: Vamos ao teatro!
  11. Lendo.org: Mais teatro, Brasil! Disseminando a cultura
  12. Visão Panorâmica: Cultura, teatro e cidadania: mais teatro, Brasil!
  13. Vísceras literárias: mais teatro, Brasil!
  14. Coca gelada: Mais Teatro, Brasil!
  15. ClickFoz: Quer um teatro em sua cidade? Então apoie
  16. Divã do Masini: Blogagem coletiva Mais Teatro, Brasil!
  17. Pugnus Comunicação: Manifesto Mais Teatro Brasil
  18. Nossa Noite: campanha pró-teatro
  19. Claudia Belhassof: o teatro é nosso
  20. Encontro de Twitteiros Culturais apoia a campanha
  21. Pensamenteando: você já foi ao teatro?
  22. DJ Ilan Kriger: Mais Teatro, Brasil! Espalhe essa ideia
  23. Ernesto Diniz: Mais Teatro Brasil
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6 Responses to “Dou a maior força… porém…”


  1. 1 Daniela 26/04/2010 às 1:01 PM

    Olá. Brilahnte teu texto. Concordo com os dois poréns que apontou. Acredito que cultura é tudo aquilo que o homem produz, desde objetos à canções tradicionais,do teatro nos palcos ao teatro de rua, do cinemão ao vídeo caseiro, do pagode e funk da favela à ópera dos grandes teatros.

    E a visão redentora da educação é tema recorrente nas minhas aulas na faculdade. Que educação está proposta? Assim como a cultura está em todos os espaços, a educação também não é exclusividade dos bancos escolares.

  2. 2 jornalistamasini 26/04/2010 às 1:43 PM

    Boa tarde…

    Bem observado. O texto do manifesto está com alguns chavões e, nesse sentido, sua contribuição é de suma importância.

    [ ]’s

    Marcos Masini
    http://jornalistamasini.wordpress.com
    http://www.pugnus.com.br

  3. 3 Cleverson Tavares 26/04/2010 às 4:48 PM

    Interessante… fico feliz por termos representantes guerreiros burocratas… por que cá entre nós… a burocracia é o “viagra” da inspiração… só que invertido…

    Sempre apoiando o movimento…

  4. 4 Josafá Crisóstomo 26/04/2010 às 6:40 PM

    Caro,
    Você tem razão.
    Eu também observei esses vícios de expressão no Manifesto, sobretudo em relação ao conceito de cultura. Já em relação à ideia bastante problemática da possibilidade da diminuição das desigualdades pelo acesso à educação formal concordo que é discutível. Nesse sentido, teria sido melhor considerar que contribui para a qualidade da educação a democratização dos canais de expressão cultural, daí a necessidade de se criar esses centros culturais nas tais cidades que não os têm, não é mesmo?

    Contudo, como a causa é justa e sensata, acho que sim temos mais é que apoiar o movimento.
    Afinal, é muito triste que existam cidades com tanta gente e sem um espaço decente para uma manifestação cultural, qualquer que seja ela: local, folclórica, a montagem de uma peça de uma companhia visitante etc.

    Por fim, também quero dizer que curti esse espaço! Parabéns pelo post! ;-D

  5. 5 Thiago 29/04/2010 às 2:55 AM

    Interessante o projeto e as obs feitas por ti, mas fico com uma pulga atrás da orelha. A idéia de se construir um espaço, que contenha diversos aparelhos culturais me soa um pouco ultrapassada se analisarmos pelo movimento de pulverização, de descentralização, que o digital tem proposto para nós. Fazer tudo em um espaço só é um conceito adaptado do shopping. O que é o shopping se não um centro de consumo e entretenimento? E o que pretende o projeto senão construir um centro de cultura? A idéia de levar aparelhos culturais para regiões que não possuem nada é nobre, mas me preocupo com a lógica que a proposta se insere.
    Vivemos numa época do efeito calda longa, tanto na economia como na cultura, onde ao invés de centralizar
    A dificuldade de grandes centros como esses não é de serem construidos, mas a de se manterem. Epaços culturais do gorverno são marcados por má conservação, inclusive os telecentros!
    Precisamos sim de um novo modelo de negócios para centros culturais, ai e que está aquestão. Fico pensando também nas cidades que não tiverem esse contingente de habitantes, o que acontece com elas?! Como dizemos aqui Rio, “perdeu playboy”?
    Enfim, só queria provocar um outra visão da coisa. Abçs!


  1. 1 Blogagem coletiva Mais Teatro, Brasil!: posts participantes | Livros e afins Trackback em 12/03/2012 às 9:46 AM

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