“As loucuras dos especialistas”

Cheguei ao final do excelente “Memória Vegetal” e aproveito para transcrever abaixo alguns dos trechos do subcapítulo “As loucuras dos especialistas”, onde Umberto Eco cita alguns comentários — não muito felizes — feitos por editores e críticos literários, sobre obras e autores de diferentes épocas.

Uma pequena lista de citações que os “especialistas” da atualidade deveriam manter à vista sempre que fossem escrever uma resenha. Afinal, ninguém quer ser lembrado como “o sujeito que recusou os originais de Tolkien para O Senhor dos Anéis“.

Emily Brontë: “Em O morro dos ventos uivantes, os defeitos de Jane Eyre [da irmã de Charlotte] são multiplicados por mil. Pensando bem, o único consolo que nos restará é o pensamento de que o romance nunca será popular” (James Lorimer, North British Review, 1849).

Em 1851, Moby Dick foi recusado na Inglaterra com a seguinte avaliação: “Não achamos que possa funcionar no mercado da literatura para jovens. É longo, de estilo antiquado, e cremos que não merece a reputação de que parece gozar.”

Flaubert, em 1856, viu repelida sua Madame Bovary com esta carta: “Cavalheiro, o senhor sepultou seu romane num cúmulo de detalhes que são bem desenhados mas totalmente supérfulos.”

De Emily Dickinson, o primeiro manuscrito de poemas foi rejeitado em 1862 com: “Dúvida. As rimas estão todas erradas.”

H. G. Wells, A máquina do tempo, 1895: “Pouco interessante para o leitor comum e não suficientemente aprofundado para o leitor científico.”

Colette, Claudine na escola, 1900: “Não conseguiria vender nem dez exemplares.”

Henry James, A fonte sagrada, 1901: “Decididamente, dá nos nervos… Ilegível. O sentido do esforço torna-se exasperante ao máximo grau. Não há história”.

James Joyce, Dedalus, 1916: “No final do  livro tudo se desintegra. Tanto a escrita quanto as ideias explodem em fragmentos meio úmidos, como polvorim molhado.”

George Orwell, A revolução dos bichos, 1945: “Impossível vender histórias de animais nos USA.”

Sobre Molloy, de Becket, 1951: “Não faz sentido pensar numa publicação: o mau gosto do público americano não coincide com o mau gosto da vanguarda francesa.”

Para o Diário de Anne Frank, 1952: “Esta jovem não me parece ter uma percepção especial, ou seja, o sentimento de como se pode levar este livro acima de um nível de simples curiosidade.”

Nabokov, Lolita, 1955: “Deveria ser contado a um psicanalista, o que provavelmente se fez, e foi transformado num romance que contém alguns passos de bela escritura, mas é excessivamente nauseant, até para o mais iluminado dos freudianos… Recomendo sepultá-lo por mil anos.”

Pra concluir (senão acabo transcrevendo todo o livro), seguem abaixo 3 anotações, extraídas de diários, que mostram que até os gênios podem ter dias ruins.

Tchaikovski, em seu diário, escrevia sobre Brahms: “Estudei longamente a música daquele tratante. É um bastardo, desprovido de qualidades.”

No Diário de Virgínia Woolf, lê-se: “Acabo de ler Ulysses e o considero um insucesso… É prolixo e desagradável. É um texto rústico, não só no sentido objetivo, mas também do ponto de vista literário.”

Manet, sobre Renoir, dizia a Monet: “Aquele rapaz não tem o mínimo talento.”

Anúncios

5 Responses to ““As loucuras dos especialistas””


  1. 1 Yasmin Borba 21/10/2010 às 8:12 AM

    muito bom!
    me dá até forças para continuar na minha saga de escrever um livro!

  2. 2 Marcela 21/10/2010 às 10:43 AM

    “muito bom!
    me dá até forças para continuar na minha saga de escrever um livro!”²
    Deu vontade de ler esse livro.
    Recentemente li o livro de bolso “O que é Editora” de Wolfgang Knapp, da coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense. Há uma parte que o autor conta sobre os livros que editoras recusaram a manter como o original e acabaram se tornando um sucesso em outra editora. Tem casos de todos os tipos. Editores que ajudaram escritores, fazendo a pergunta se não era uma parceria ou até ghost-writer.
    É muito difícil saber, ou adivinhar, que tipo de livro irá se tornar um bestseller ou um fracasso que não venderia nem 10 exemplares. E também: o que viraria obra literária?

  3. 3 Dijavan Luis Santos de Brito 24/10/2010 às 7:33 AM

    Muito bom, dá até forças pra continuar minha saga de escrever um livro![2]

  4. 4 Mariana Watanabe 02/11/2010 às 2:20 AM

    Muito bom, dá até forças pra continuar minha saga de escrever um livro![3]

    aliás, sempre desconfiei que para ser crítico de arte o primeiro pré-requisito é abandonar toda inteligência que já possuia

  5. 5 uiara nunes 02/11/2010 às 10:39 AM

    Aqui é legal! Descontraído como um cafezinho e com conteúdo. Sobre o post: é interessante ver como os bons artistas são visionários, sempre à frente do seu tempo, causando desconforto com o inovador. Pena que, às vezes, tbm tenham um ego inflado demais pra reconhecer o talento do outro.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




RSS Dois Espressos   Twitter Dois Espressos   Vídeos Dois Espressos   Fotos Dois Espressos
Músicas Dois Espressos   Links Dois Espressos   Locais Dois Espressos   GReader Dois Espressos
Facebook Dois Espressos   Livros de Dois Espressos   Corridas de Dois Espressos

Última corrida

Corridas

Fotos recentes

Mais fotos

Últimos Tweets

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

Última nota do Moleco

" (...) Quanto a mim, a base de minha vida vai ser uma fazenda em algum lugar onde vou produzir parte de minha própria comida, e, se necessário, toda ela. Um dia não vou fazer coisa alguma além de sentar embaixo de uma árvore para ver minha lavoura crescer (depois do trabalho devido, claro) -- e beber vinho caseiro, e escrever romances para edificar meu espírito, e brincar com meus filhos, e relaxar, e gozar a vida, e brincar, e assoar o nariz. (...) Vou viver a vida do meu jeito 'preguiçoso coisa ruim', é isso o que vou fazer."

Diário de Jack Kerouac, 23 de agosto de 1948.
Molecos Viajantes

Últimos links del.icio.us


%d blogueiros gostam disto: