Archive for the 'Opiniões' Category

Artes e Design, 1º dia (faltam 1459 dias)

Voltar às salas de aula da UFJF para mais 3 ou 4 anos de estudo deveria ser muito empolgante… mas, infelizmente, não é. Já conheço os jogos de poder, as fogueiras de vaidades do corpo docente e a inércia intelectual de uma enorme massa de acadêmicos que buscam apenas conseguir um diploma universitário com o menor esforço possível.

Depois de 2 graduações, de participar da política estudantil em diretórios acadêmicos e dos anos como bolsista de pesquisa, monitoria e extensão, a única coisa que me surpreenderia na aula de amanhã seria ver um professor entrar em sala, às 8h da manhã, dizendo a verdade aos calouros.

Malvados

Covardes. Covarde.

Trecho de um relato escrito pelo Antonio Prata (grifo meu) sobre uma “abordagem policial” cada vez mais comum na Zona Sul do Rio de Janeiro (e sobre a forma como todos nós enfrentamos esse tipo de situação).

Enquanto um policial dava choques no homem e fazia perguntas, o outro revirava seus pertences com o bico do coturno, espalhando as sacolas plásticas, o cobertor cinzento e um amontoado de miudezas sob a marquise, onde ele se protegia da garoa.

O barulho de matraca da pistola amarela [uma taser gun], tec,tec,tec,tec,tec, como a ignição de um fogão que demora a acender, era abafado pelos gritos do mendigo, recebendo descargas na parte de trás das coxas e nas costas. Mais ainda, era abafado pelas vozes na minha cabeça: ‘Vai lá!’, dizia-me uma delas. ‘Você que teve pré-natal e fralda descartável, você que estudou em escolas privadas e freqüenta mostras de cinema, você, com lentes de contato e livros na estante, você, que veio de uma família estruturada e caminha em direção a um restaurante: vai ficar aí, parado? Outra voz, a voz covarde, me dizia: “esquece. Não é o caso de peitar dois policiais, ainda mais sendo paulista, no Rio de Janeiro. E se te jogarem no camburão? Se te derem choque com a arma amarela?’ A voz corajosa insistia. “É seu dever! E é pouco provável que te batam. Você sabe bem que, desde a redemocratização, a tortura deixou de ser aplicada aos de lentes de contato e livros na estante e ficou restrita aos do outro lado da rua, sob a marquise.’”

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Quem mora em Copacabana, perto do Posto 4 e da Estação Cantagalo do Metrô, presencia cenas como essa quase que semanalmente. Minha mãe, da janela do apartamento na esquina da Bolívar com Nossa Senhora de Copacabana, já viu adultos e crianças, homens e mulheres, gritando e se contorcendo na calçada por causa dos choques aplicados por policiais militares.

Leia o texto completo

Bibliografia básica para universitários (todos!)

Do genial Mario Prata, a listinha que foi reproduzida por centenas de blogs nos idos de 2001~2002.

De lá pra cá, pouca coisa mudou no meio acadêmico.

1º Ano

“Utopia”, Thomas Morus
“As Grandes Esperanças”, Charles Dickens
“Pollyanna”, Eleanor H. Porter
“Candido ou O Otimismo”, Voltaire
“O Silêncio dos Inocentes”, Thomas Harris

2º Ano
“Tormenta”, Sebastian Junger
“Um Pressentimento Funesto”, Agatha Christie
“Horizonte Perdido”, James Hilton
“Sem Destino”, Lee Hill
“Cuca Fundida”, Woody Allen
“O Idiota”, Fiódor Dostoievski

3º Ano
“A Fogueira das Vaidades”, Tom Wolfe
“Desespero”, Stephen King
“As Ilusões Perdidas”, Honoré de Balzac
“Não se mate”, Carlos Drummond de Andrade
“Enquanto Agonizo”, William Faulkner
“Morte a Crédito”, Louis Ferdinand Céline

4º Ano
“Os Miseráveis”, Victor Hugo
“A Náusea”, Jean-Paul Sartre
“O Suicídio”, Emile Durkheim

Dou a maior força… porém…

Dou a maior força!

Cennarium — empresa que transmite espetáculos de teatro pela Internet — está promovendo hoje uma blogagem coletiva para divulgar o Manifesto Mais Teatro, Brasil! Um manifesto nacional que propõe a inclusão sociocultural e disseminação da arte, cultura e entretenimento usando como base o teatro.

O objetivo da campanha é:

Colher o maior número de assinaturas possível para dar entrada, junto ao Congresso Nacional, num projeto de Lei de Iniciativa Popular, para que seja obrigatória a construção de um Centro Integrado de Cultura, em cada município cuja população seja superior a 25 mil habitantes.

Esses Centros Integrados serão espaços multiculturais que, além de um teatro — núcleo fundamental do projeto — contarão com “salas de cinema, biblioteca, salas de exposições, salas para eventos e palestras, espaços para cursos e oficinas de teatro, artesanato, artes plásticas, pintura, música, dança”, “um espaço multimídia (…) para fomentar a inclusão digital (…) e, ainda, espaços destinados ao comércio”.

Dou a maior força!Sobre as intenções do projeto e suas bases ideológicas

Não há como questionar a importância da construção de espaços destinados a difusão cultural e artística onde quer que seja. Mesmo que o projeto não chegue a ser posto em prática, só o fato de “fazer barulho” e trazer a questão para pauta de debates já faz com que a iniciativa seja louvável e digna de apoio.

Entretanto, minhas duas formações acadêmicas — uma na área de Educação e outra na de Ciências Sociais — me obrigam a comentar dois pontos do Manifesto que considero controversos.

O primeiro ponto diz respeito ao uso do termo “cultura”. Acredito que é preciso ter cuidado ao afirmar que uma parcela da população está “sem acesso a cultura”. Particularmente não conheço ninguém que esteja “sem acesso” a novelas, Big Brother Brasil, futebol, funk e grafite (pixação)… e tudo isso é cultura. Logo, dizer que “qualidade da educação de um país está intimamente ligada ao acesso que sua população tem à cultura” é, no mínimo, incompleto. O que se quer dizer, creio eu, é que a qualidade da educação de um país está intimamente ligada ao acesso que sua população tem à cultura que as escolas consideram legítima e digna de reprodução (o que também é discutível, mas, enfim…).

O segundo ponto — e esse me preocupa mais — diz respeito as afirmações, com questionável base teórica, que apontam a educação como elemento fundamental para a construção de um projeto nacional e grande (principal?) responsável pela redução das desigualdades sociais (Bourdieu deve ter se revirado no túmulo).

Dizer que “quanto melhor o nível de educação, menor serão as desigualdades sociais” é acreditar, dentre outras teorias, no paradigma da educação redentora (vasta bibliografia sobre o tema na Internet), que já foi questionado por inúmero filósofos, sociólogos e educadores (arrisco até dizer que na biblioteca da Faculdade de Educação da UFJF — onde concluí uma de minhas graduações — exista uma sessão inteira só com livros, dissertações e teses sobre o tema).

Não sei se existem, nos dias de hoje, sociólogos ou educadores que ainda defendam a ideia de uma educação que busque adaptar o indivíduo ao meio para curar suas mazelas sociais.

Enfim… como disse acima… apoio integralmente a iniciativa de construção de espaços destinados à arte, mas acho importante promover uma discussão mais aprofundada sobre as ideias contidas no Manifesto para que, assim, tenhamos um Projeto de Lei que, se aprovado, será realmente a maior transformação da história da cultura brasileira.

Para conhecer todos os detalhes sobre o funcionamento dos Centros Integrados de Cultura, visite a página do “Mais Teatro, Brasil!” e leia o Manifesto. Lá você também encontrará informações sobre a viabilidade econômico-financeira do projeto, o conceito arquitetônico dos Centros Integrados e a importância deles para o desenvolvimento cultural da população dos municípios onde eles serão construídos.

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UPDATE: Via Livros e Afins, uma lista com outros blogs que participam da blogagem coletiva.

  1. Caducando: Teatro; onde possível
  2. Caminhante Diurno: Mais teatro, Brasil!
  3. Código Livre: Mais teatro, Brasil! Dou a maior força
  4. Gatos em Foco: Mais teatro, Brasil! Dou a maior força
  5. Interpretante Imediato: Dou a maior força
  6. Jeguiando: Mais teatro, Brasil: Blogagem coletiva
  7. Jornalista Masini: Mais teatro, Brasil
  8. Jujuba Crônica: Mais teatro, Brasil
  9. Trecos e trapos: Mais teatro, Brasil
  10. Vivendocidade: Vamos ao teatro!
  11. Lendo.org: Mais teatro, Brasil! Disseminando a cultura
  12. Visão Panorâmica: Cultura, teatro e cidadania: mais teatro, Brasil!
  13. Vísceras literárias: mais teatro, Brasil!
  14. Coca gelada: Mais Teatro, Brasil!
  15. ClickFoz: Quer um teatro em sua cidade? Então apoie
  16. Divã do Masini: Blogagem coletiva Mais Teatro, Brasil!
  17. Pugnus Comunicação: Manifesto Mais Teatro Brasil
  18. Nossa Noite: campanha pró-teatro
  19. Claudia Belhassof: o teatro é nosso
  20. Encontro de Twitteiros Culturais apoia a campanha
  21. Pensamenteando: você já foi ao teatro?
  22. DJ Ilan Kriger: Mais Teatro, Brasil! Espalhe essa ideia
  23. Ernesto Diniz: Mais Teatro Brasil

Deixai que venham a mim as criancinhas…

Agora não falta mais nada. Até Joseph Ratzinger — o infalível Papa Bento XVI — ajudou a acobertar casos de pedofilia.

Padre sinistro

Vai lá... coloca seu filho no catecismo...

Sobre o assunto, destaco dois trechos do artigo de Hélio Schwartsman para a coluna Pensata, da Folha de São Paulo, sobre os casos de pedofilia no Canadá, nos EUA, na Irlanda, na Polônia, na Argentina, na Nova Zelândia, na Alemanha, no Brasil, na Áustria, na Itália… enfim…

“…essa atitude [de acobertar os casos de pedofilia na Igreja Católica] é até mais grave que o próprio molestamento, pois a pessoa que abusa pode pelo menos descrever-se como vítima de uma doença psiquiátrica catalogada no CID. Já o acobertamento, este ainda não foi definido como patologia por nenhuma associação médica. Aqui, ao que parece, bispos eram mais leais à instituição da igreja do que a seus próprios fiéis. Talvez seja isso que a Santa Sé espera deles, mas não é certamente o que recomenda a virtude republicana”.

“…a Igreja Católica funciona como um ímã para pessoas com propensões pedofílicas, pois não apenas legitima e confere elevado status social à vida de solteiro como ainda oferece incontáveis oportunidades de interagir com jovens estando numa posição de poder”.

Leia o artigo completo.

Sobre ovelhas e lobos

E por conta do anúncio da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência, segue abaixo mais um trecho do excelente “Ostra feliz não faz pérola“, de Rubem Alves. (grifo meu)

“O destino da democracia se decide no momento da sua fundação. Se os lobos são eleitos para estabelecer as regras do jogo, será inútil que as ovelhas que os elegeram berrem depois ao serem transformadas em churrasco. Pois os lobos, que elas elegeram como seus representantes para fazer as leis, escreveram como lei: “É direto dos lobos comer ovelhas”. Não existe caso em que os lobos tenham, democraticamente, aberto mão dos direitos que eles mesmos estabeleceram. As ovelhas são as culpadas de sua desgraça. Foram elas que, pelo voto, deram poder aos lobos.

Eu vs. Alex Atala

Semana passada comentei no Twitter sobre os valores exorbitantes que chefs brasileiros têm cobrado por seus pratos em comparação com os valores cobrados por chefs de renome internacional.

Quer um exemplo?

Granny-smith flavoured dessertSe em uma noite tarde de sábado você for ao The Waterside Inn, em Berkshire, no Reino Unido, para experimentar o menu gastronomique do chef Alain Roux — que tem 3 estrelas Michelin — vai gastar £56,50 (algo em torno de R$170). Enquanto isso, aqui no Brasil, alguns restaurantes de São Paulo servem um “ovo cozido a 63ºC por 2h30” por R$25 (é isso mesmo que você leu… 1 ovo por R$25) e um prato de massa com trufas brancas por R$410 (não é o jantar todo não… é só 1 prato de massa).

Minha dúvida: será que os clientes brasileiros — que, em sua maioria, não têm cultura gastronômica — conseguem captar a sutil diferença de um ovo comum para um “cozido a 63ºC por 2h30” ou estão apenas pagando pelo status de comer em um bistrô badalado? E os chefs brasileiros… estão vendendo comida ou apenas toalhas bonitas, ambiente agradável e um pedacinho de carne sem gordura, em um prato enorme e caro, enfeitado com algumas folhinhas coloridas e rabiscos feitos com molhos insossos?

Enquanto pensava sobre o assunto acabei esbarrando em dois trechos interessantes do livro “O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas“, que acabei de ler.

Em um estudo feito em 2008, um grupo de voluntários deu uma nota melhor a uma garrafa [de vinho] com etiqueta de US$90 que em outra com etiqueta de US$10, embora os pesquisadores tivessem enchido as duas garrafas com o mesmo vinho. Além disso, o teste foi feito enquanto o cérebro  dos voluntários  era visualizado com um aparelho de ressonância magnética. As imagens mostraram que a área do cérebro responsável por codificar as experiências do prazer ficavam muito mais ativas quando tomavam o vinho que acreditavam ser mais caro.

Mas será que existe algum critério para decidir se um vinho é melhor que outro? Claro que existe…

Cientistas desenvolveram maneiras de medir diretamente a discriminação do paladar dos enólogos. Um dos métodos consiste em usar um triângulo de vinhos. Não se trata de um triângulo físico, e sim metáfora: cada especialista recebe  três vinhos, dos quais dois são idênticos. A missão: identificar o vinho diferente. Num estudo feito em 1990, os especialistas identificaram o vinho diferente somente em 2/3 das vezes, o que significa que, em 1 de cada 3 degustações, esses gurus do vinho não conseguiram distinguir um pinot noir com, digamos, “nariz exuberante de morango selvagem, abundância de aromas e framboesa” de outro com “aroma distinto de ameixa seca, cerejas amarelas e cassis sedoso”. No mesmo estudo, pediu-se a um conjunto de especialistas que avaliassem uma série de vinhos com base em 12 componentes, como teor alcoólico, a presença de taninos e o quanto vinho era doce ou frutado. Os especialistas discordaram significativamente em relação a 9 dos 12 componentes.

Com base nas informações de que os consumidores são estimulados positivamente ao saberem o valor daquilo que consomem e de que muitos especialistas não são capazes de, pelo paladar, diferenciar um produto de outro, eu pergunto:

Se pegássemos aleatoriamente alguns clientes do D.O.M. — eleito pela Restaurant Magazine como o melhor restaurante da América do Sul e 24º melhor restaurante do mundo — e, como sobremesa, sem dizer nada, servíssemos a eles o meu pudim de leite no lugar do pudim de leite preparado pelo Alex Atala, quantos perceberiam a diferença? E quantos achariam o meu pudim de leite melhor que o do Alex Atala? E se ao invés de clientes comuns fizéssemos a experiência com outros chefs brasileiros… quantos perceberiam a diferença?

Pudim de Leite servido no D.O.M. - Foto de Marcelo Träsel

Pudim de Leite servido no D.O.M. - Foto de Marcelo Träsel

Quer uma dica de qual poderia ser o resultado? Veja abaixo um trecho do programa “The F Word”, apresentado pelo chef Gordon Ramsay — que somando todos os seus restaurantes acumula 13 estrelas Michelin — onde ele compete com a apresentadora de TV Sarah Beeny para ver qual brownie de chocolate agrada mais os clientes.

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Como leitura complementar sobre o tema, recomendo o texto do Marcelo Träsel sobre os preços exorbitantes de alguns restaurantes de Porto Alegre.

Para os que gostam de um bom churrasco, recomendo as dicas de preparo para um churrasco perfeito.

Se além de churrasco você também curte hambúrguer, dê uma olhada na minha receita para um hambúrguer perfeito.

Pros gourmets amadores, 5 dicas de blogs que você deveria conhecer.

Além disso, aproveite para dar uma olhada nas dicas para apreciadores de café e conhecer o Astória Real, o melhor Café natural do Brasil.


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Diário de Jack Kerouac, 23 de agosto de 1948.
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